O Mata-Burro
O homem de Neanderthal nunca imaginou uma coisa assim. Escadas rolantes, elevadores, pra não falar de carros e aviões. Esforço quase zero. Graças ao incrível progresso cientifico e tecnológico da humanidade até aqui, vivemos muito mais confortavelmente do que qualquer um de nossos antepassados. Isso é claro, se você não está incluído na parte miserável da humanidade que foi barrada nessa festa, já que o progresso social é bem lento. Muito lento mesmo.
Mas tudo bem, aos poucos ele vai chegando a todos. É só ver o caso de Quixeramobim, lá no Ceará. O jumento, que já foi cantado com tons fraternais, saiu de moda, substituído por motos e bicicletas, bem mais práticas e confortáveis. Bom, sempre reclamaram dos maus tratos que os bichos sofriam, né? Livrando as bestas de suas cargas, essa aposentadoria viria em boa hora, se não fosse pela questão de que elas não têm onde gozá-la. Fazer o quê? Construir um retiro para jegues? Não dá, o país do futuro ainda tem um presente miserável. Ia pegar mal. Melhor descer uma picareta na testa dos bichos e enterrar todos em uma vala comum. Talvez não vá pegar muito bem para o nome da cidade, do estado ou país, mas resolve o problema e reputação é coisa que cicatriza rápido. Ah, podem se acalmar, autoridades, que a peça não é sobre Quixeramobim. Talvez não seja nem sobre burros e picaretas. Li que estão pensando em dar um destino mais digno para os animais, vendendo-os para abatedouros em países onde essa carne é apreciada. Vão continuar morrendo, só que agora longe da terra natal e transformados em finas iguarias. Ah, bom. Mas... Alguém tem outra solução? Uma em que o homem de Neanderthal não pensaria? (Fabio Torres)
Mas tudo bem, aos poucos ele vai chegando a todos. É só ver o caso de Quixeramobim, lá no Ceará. O jumento, que já foi cantado com tons fraternais, saiu de moda, substituído por motos e bicicletas, bem mais práticas e confortáveis. Bom, sempre reclamaram dos maus tratos que os bichos sofriam, né? Livrando as bestas de suas cargas, essa aposentadoria viria em boa hora, se não fosse pela questão de que elas não têm onde gozá-la. Fazer o quê? Construir um retiro para jegues? Não dá, o país do futuro ainda tem um presente miserável. Ia pegar mal. Melhor descer uma picareta na testa dos bichos e enterrar todos em uma vala comum. Talvez não vá pegar muito bem para o nome da cidade, do estado ou país, mas resolve o problema e reputação é coisa que cicatriza rápido. Ah, podem se acalmar, autoridades, que a peça não é sobre Quixeramobim. Talvez não seja nem sobre burros e picaretas. Li que estão pensando em dar um destino mais digno para os animais, vendendo-os para abatedouros em países onde essa carne é apreciada. Vão continuar morrendo, só que agora longe da terra natal e transformados em finas iguarias. Ah, bom. Mas... Alguém tem outra solução? Uma em que o homem de Neanderthal não pensaria? (Fabio Torres)
FICHA TÉCNICA
texto: Fabio Torres
direção: André Garolli
cenário: Adonay Donley
figurinos: Helena Morais
A Degola
A Degola é uma peça que trata do encontro. Em quatro momentos distintos um homem e uma mulher tentam se comunicar. Entre eles há mais do que podem imaginar, uma instituição prisional, um sistema inovador de trabalho com menores infratores e o imponderável da comunicação humana. Com o passar do tempo a relação se aprofunda e se modifica, mas será que há uma possibilidade de mudança entre seres de classes sociais tão distintas? Há uma real forma de se definir a atração? Em um ambiente fechado, mas não estático, entre objetos mínimos, a peça perscruta a relação entre um homem e uma mulher e o imponderável das instituições sociais.
(Paula Chagas)
FICHA TÉCNICA
texto: Paula Chagas
direção: Lucienne Guedes
assistência de direção: Claudia Pucci
figurinos: Claudia Schapira
cenário: Sergio Fahrer
trilha sonora: Gustavo Kurlat
iluminação: Rafael Curti
elenco: Gabriela Flores e Marcos Gomes
MAIS UM
Antes de qualquer coisa, Mais Um se passa no metrô de São Paulo. Esse espaço de trânsito, paisagem sem horizonte, a um só tempo ícone e clichê da urbanidade, era o que eu precisava para tentar escrever sobre o habitante da metrópole, tema que me é bastante caro.
Não se trata de uma peça que gira em torno de um protagonista. É um texto sobre nove pessoas que trafegam pelos trens subterrâneos no fim de uma noite qualquer. A cada qual, sua dor. No entanto, em todos eles reiteram-se duas questões. Mais Um é sobre estranhos que se cruzam e sobre conhecidos que se separam. Todos, de uma forma ou de outra, têm suas vidas alteradas por esses cruzamentos e por essas separações. Perdas e cruzamentos que fazem com que se percebam também anônimos, seres que vivem de subjuntivos, do trânsito acelerado do olhar e que, mesmo em terra firme, anseiam por território, identidade.
Não se trata de uma peça que gira em torno de um protagonista. É um texto sobre nove pessoas que trafegam pelos trens subterrâneos no fim de uma noite qualquer. A cada qual, sua dor. No entanto, em todos eles reiteram-se duas questões. Mais Um é sobre estranhos que se cruzam e sobre conhecidos que se separam. Todos, de uma forma ou de outra, têm suas vidas alteradas por esses cruzamentos e por essas separações. Perdas e cruzamentos que fazem com que se percebam também anônimos, seres que vivem de subjuntivos, do trânsito acelerado do olhar e que, mesmo em terra firme, anseiam por território, identidade.
(Cássio Pires)
FICHA TÉCNICA
texto: Cássio Pires
direção: Ana Roxo
assistência de direção: Janaína Leite
figurinos: Claudia Schapira
cenário: Djair Guilherme
trilha sonora: André Frateschi
iluminação: Kleber Montanheiro
elenco: Cristina Rocha, Vicente La Torre, Erica Montanheiro,
FICHA TÉCNICA
texto: Cássio Pires
direção: Ana Roxo
assistência de direção: Janaína Leite
figurinos: Claudia Schapira
cenário: Djair Guilherme
trilha sonora: André Frateschi
iluminação: Kleber Montanheiro
elenco: Cristina Rocha, Vicente La Torre, Erica Montanheiro,
Lina Agifu, Walmir Pavan, Juliana Mesquita, Rogério Fraulo
Paulo Vinícius e Thiago Adorno.
Paulo Vinícius e Thiago Adorno.
(ainda sem título)
Em um teatro decadente, quatro atores tentam estrear uma peça sobre amor e relacionamento. Nessa peça dentro da peça, há um triangulo amoroso. No meio da estréia, um deles, que escreve e dirige o espetáculo em andamento começa a perceber que está escrevendo sobre si mesmo, e que está vivendo o triângulo amoroso que inventou. Com as duas camadas da linguagem – a peça e a peça dentro da peça – uma refletindo a outra e ambas dialogando entre si o tempo todo, ele tenta achar um bom fim – para o amor e para a peça.
Com todas as idas e vindas, (ainda sem título) é uma história de amor. De fim de amor. É uma dúvida sobre como terminar um amor. O que se passa no coração de Alberto – o nosso diretor de cena – se passa no palco. As determinações dele de como terminar o seu casamento se explicita no que ele projeta em cena na peça que está reescrevendo durante a estréia. A dúvida de como terminar o amor, se reflete na sua dúvida de como terminar essa peça. No fim, a peça e a relação terminam do mesmo jeito: já pensando na próxima.
(ainda sem título), é também uma reflexão contemporânea sobre a arte e sobre a vida. Uma dentro da outra, qual a imita? Na sua simples metalinguagem, também prevê a percepção de que cada ato – do ator e do homem, é uma escolha, e as escolhas, pelo menos na vida, são determinantes. (Ana Roxo)
Com todas as idas e vindas, (ainda sem título) é uma história de amor. De fim de amor. É uma dúvida sobre como terminar um amor. O que se passa no coração de Alberto – o nosso diretor de cena – se passa no palco. As determinações dele de como terminar o seu casamento se explicita no que ele projeta em cena na peça que está reescrevendo durante a estréia. A dúvida de como terminar o amor, se reflete na sua dúvida de como terminar essa peça. No fim, a peça e a relação terminam do mesmo jeito: já pensando na próxima.
(ainda sem título), é também uma reflexão contemporânea sobre a arte e sobre a vida. Uma dentro da outra, qual a imita? Na sua simples metalinguagem, também prevê a percepção de que cada ato – do ator e do homem, é uma escolha, e as escolhas, pelo menos na vida, são determinantes. (Ana Roxo)
FICHA TÉCNICA
texto: Ana Roxo
direção: Fabio Torres
assistência de direção: Helena Morais
cenário: Wagner Menegare
figurino: Helena Morais
iluminação: Luciana Castros
operação de luz: Aline Tunes
elenco: Danielle Farias, Fabiana Ol Kondor,
Ricardo Aguiar e Tadeu de Araújo.